A Fraternidade sacerdotal São Pio e Roma

Conferência de Dom Lefebvre, 1987

As etapas de um combate

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X foi fundada oficialmente em 1970.

Para aqueles que não conhecem bem a sua história, será útil recordar as principais etapas, neste momento em que, diante das atuais circunstâncias, nos esforçamos por continuar e desenvolver a obra que a Providência nos confiou.

Se os acontecimentos provocassem uma mudança favorável a uma volta à Tradição no interior da Igreja, nossa situação evidentemente se simplificaria muito, porque a hierarquia certamente nos reconheceria, como nos reconheceu no princípio, e não se pensaria em todos os problemas de nossas relações com Roma e com os bispos.

Neste momento, devemos guardar a autenticidade da Fraternidade, que foi fundada em circunstâncias bem particulares, mas que podia haver sido perfeitamente fundada em tempos normais. É verdade que a causa dessa fundação foi a degradação dos seminários. Mas outras congregações, como as de São Vicente de Paula e de São João Eudes, foram fundadas com idêntico objetivo, que foi e segue sendo o de dar uma boa formação sacerdotal aos futuros padres, capacitando-os a exercer um ministério que seja uma ocasião de renovação na Igreja.

Razão de ser da Fraternidade: formar sacerdotes segundo o espírito da Igreja

A Fraternidade foi fundada primeiramente para formar sacerdotes e, em consequência, para abrir seminários. O que está perfeitamente de acordo com a Tradição da Igreja, porque consiste simplesmente em continuar a formação sacerdotal tradicional para a Igreja.

Não procuramos outra coisa e jamais tivemos a intenção de inovar, a não ser no sentido da Tradição e recuperando certos elementos que talvez faltassem um pouco na formação dos seminaristas, especialmente no plano espiritual. Por esse motivo, agregamos aos estudos filosóficos e teológicos um ano de espiritualidade, que complementa a preparação dos seminaristas para o sacerdócio, colocando-os em uma atmosfera verdadeiramente espiritual. Logo, não consiste em uma inovação que tenha o sentido dos modernistas, mas, muito ao contrário, tem o mesmo sentido que a Tradição da Igreja.

Portanto, nossa fundação teve o cuidado de agregar aos estudos uma formação espiritual séria por meio de um ano suplementar que constitui uma espécie de noviciado e que conduz ao importante conhecimento sobre a espiritualidade e à prática da vida interior, da vida purgativa e iluminativa, mística que reclama uma reforma de si mesmo.

A Fraternidade não foi fundada sobre o modelo de uma congregação religiosa. Por quê? Porque na prática é muito frequente constatar as dificuldades experimentadas pelos religiosos que exercem um apostolado no mundo de respeitar realmente a estrita pobreza da forma como é pedida pelas congregações religiosas, nas quais não está permitido possuir ou usar nada sem a permissão do superior. Tudo depende do superior e, por isso, era preferível não estar atado por um voto que correria o risco de ser contradito continuamente. Era melhor fundar uma congregação de vida comum sem votos, mas com promessas.

Foi assim que a Providência decidiu que nossa Fraternidade fosse organizada segundo o modelo das congregações de vida comum sem votos e Deus já deu provas disso. Assim, não existe até o momento motivo para não seguirmos sendo como somos.

A Fraternidade oficialmente aprovada por Roma

Sob essa forma, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X foi aprovada e erigida em sua diocese por Dom Charrière, bispo de Friburgo (Suíça), em 1º de novembro de 1970. E também sob essa forma ela foi aprovada por Roma.

Esse fato é importantíssimo, ainda mais, fundamental, e não devemos hesitar em recordar aos que não conhecem bem a história da Fraternidade.

De fato, o documento romano é capital, porque é inteiramente oficial. Tem a data de 18 de fevereiro de 1971 e o selo da Sagrada Congregação para os Religiosos. Está assinado pelo Cardeal Wrigth e referendado por Monsenhor Pallazini, que na época era seu secretário e que hoje é cardeal. Esse documento oficial, procedente de uma Congregação Romana que aprovava e louvava “a sabedoria das normas” dos Estatutos da Fraternidade, deve ser considerado como um "decreto de louvor" que, portanto, autoriza nossa Fraternidade a ser considerada como de Direito Pontifício, tendo assim o poder de incardinar.

Alguns outros atos oficiais realizados pela Congregação dos Religiosos, cujo prefeito era o Cardeal Antoniutti, completaram e confirmaram posteriormente esse reconhecimento oficial, porque esses atos permitiram ao Padre Snyder e a outro religioso americano serem incardinados diretamente na Fraternidade. Foram propriamente atos oficiais de Roma.

Por tanto, esses documentos oficiais nos obrigam a constatar que a Congregação para o Clero considerava de facto que nossa Fraternidade podia incardinar regular e validamente.

Contudo, pessoalmente, eu não quis utilizar essa possibilidade até o momento em que fomos suprimidos oficial, mas ilegalmente. Antes disso, sempre me havia esforçado em solicitar a incardinação a alguns bispos. Recorri a Dom Antônio de Castro Mayer, do Brasil, a Dom Castán Lacoma, da Espanha, e a Dom Guibert, das Ilhas Reunião. Estes três bispos aceitavam dar-me cartas demissórias para os sacerdotes da nossa Fraternidade, que, desse modo, ficavam incardinados em suas dioceses. O Padre Aulagnier, por outro lado, foi incardinado em sua diocese de Clermont-Ferrand por Dom de la Chanonie. Nesse momento, estávamos corretos de dois modos. Dom Adam me disse explicitamente: “Por que o senhor não incardina diretamente em sua Fraternidade?”. Respondi-lhe: “Penso que é somente diocesana”. Assim, longe de colocar-me por cima das regras canônicas, na verdade me submetia a elas.

De fato, esses documentos da Congregação para o Clero referentes à incardinação dos dois religiosos americanos em nossa Fraternidade, são ainda mais importantes que a carta assinada pelo Cardeal Wrigth. Essa foi minha resposta à Congregação para a Doutrina da Fé quando fui interrogado sobre as incardinações. Disseram-me: “O senhor não tem direito a incardinar em sua Fraternidade”. “Não tenho direito? Então devem dizer à Congregação para o Clero que se equivocou ao incardinar em nossa Fraternidade”.

Voltando ao documento do Cardeal Wrigth, vemos que, estudando-o bem, não consiste somente em uma carta, mas é um "decreto de louvor", dado que, efetivamente, louva os estatutos da Fraternidade. É um ato totalmente oficial. Não é, de nenhuma maneira, uma simples carta privada. Assim, durante cinco anos, tivemos a aprovação total da Igreja diocesana e de Roma. Logo, estávamos enxertados na Igreja. Isso é fundamental para a ação providencial realizada pela Fraternidade e nos confirma em nossa existência e em nossa ação em geral. Sendo verdadeiramente da Igreja, reconhecidos oficialmente pela Igreja, fomos perseguidos.

Por que somos perseguidos?

Somos perseguidos unicamente porque guardamos a Tradição e, em particular, a tradição litúrgica.

Voltando a colocar os acontecimentos na devida ordem cronológica, é de grande interesse reler a carta que Dom Mamie me enviou em 6 de maio de 1975 para nos compenetrarmos bem das verdadeiras razões que levaram o bispo de Lausana, Genebra e Friburgo a revogar ILEGALMENTE os atos efetuados por seu predecessor, particularmente o decreto de fundação da Fraternidade de 1º de novembro de 1970. É um verdadeiro testemunho. Dom Mamie reconhece, pois o escreve, que a Fraternidade foi objeto de um decreto de fundação assinado por seu predecessor, a título de Pia Unio com sede em Friburgo, “aprovando e confirmando os estatutos de dita Fraternidade”.

Mas ele não tinha o direito de retirar por sua própria iniciativa este reconhecimento canônico. Isso vai explicitamente em contra do Código de Direito Canônico (Cânon 493). Além disso, Dom Mamie fala duas vezes sobre a liturgia em sua carta:

“(...) Já lhe recordei de sua negativa no que se refere à celebração da Santa Missa segundo o rito estabelecido por sua Santidade Paulo VI."

“Por nossa parte, seguimos pedindo, tanto aos fiéis como aos sacerdotes católicos, que aceitem e apliquem todas as orientações e decisões do Concílio Vaticano II, todos os ensinamentos de João XXIII e de Paulo VI, todas as diretivas dos secretariados instituídos pelo Concílio, incluindo a nova liturgia. Isso pedimos e seguiremos pedindo, inclusive nos dias mais difíceis, com a graça de Deus, porque esse é o único caminho para edificar a Igreja."

É o que escrevia Dom Mamie naquele momento.

Duas vezes seguidas nessa carta ele menciona a liturgia: “Porque o senhor se opõe à liturgia". Logo, esse é o motivo principal, essencial, que provocou essas medidas indignas e ilegais. Não devemos esquecê-lo, porque a questão da ordenação dos sacerdotes veio depois. O verdadeiro motivo pelo qual fomos e seguimos sendo perseguidos — ilegalmente, digo uma vez mais — por Dom Mamie, pelos cardeais de Roma e pelos bispos da França, é nossa fidelidade à santa Missa de sempre:

“Como o senhor segue com essa liturgia, está contra o Concílio do Vaticano e, estando contra o Concílio, está contra o Papa. Isso é inadmissível e por isso suprimo sua obra."

O raciocínio é muito simples. Desse modo puseram contra nós o Ordo de Monsenhor Bugnini e inventaram o que não existia: a obrigação de rezar a nova missa, que foi imposta pelos serviços do Vaticano e pelos bispos da França. E infelizmente, foi assim que numerosas comunidades abandonaram a Missa antiga, como a Abadia de Fontgombault, sob o pretexto de obediência aos bispos. Tudo isso foi imposto pela força, por coação. E também nos quiseram obrigar de todas as maneiras a deixar a antiga liturgia e a fechar nosso seminário.

Diante da impostura e da ilegalidade desta ação e, principalmente, diante do espírito em que foi orquestrada toda essa perseguição, um espírito modernista, progressista e maçônico, acreditamos que devíamos seguir adiante. Não podemos admitir algo feito ilegalmente, fruto de um mau espírito, contrário à Tradição e à Igreja, com o objetivo de destruí-la.

Sempre nos negamos a colaborar na destruição da Igreja

A isso sempre nos negamos. E desde o primeiro momento em que nos negávamos, era evidente que nos colocávamos contra aqueles que se apresentam como sendo a Igreja legal: para eles, estávamos fora da lei da Igreja e eles eram os que a respeitavam. Apreciação que consideramos totalmente inexata, porque eles são os que realmente se afastam da legalidade da Igreja, enquanto nós seguimos estando na legalidade e na validez. Quando percebemos objetivamente que eles agem segundo um espírito que destrói a Igreja, fomos obrigados na prática a atuar de um modo que parece contrário à legalidade da Igreja. Realmente parece. Mas é uma situação bastante estranha a de parecer ser arbitrários simplesmente por seguir celebrando a Missa de sempre e ordenando sacerdotes segundo o que era a legalidade até o Concílio. Contudo, foi esse o motivo que me levou a ser sancionado por suspensão e que levou os sacerdotes que aceitaram ser ordenados a ficarem em interdição.

Mas nosso exercício aparentemente ilegal nos detalhes da lei também se estendeu às confissões, aos matrimônios e a nossa instalação nas dioceses. Muitas coisas que fizemos estão em si mesmas e em sentido estrito fora da lei. Então, por que as fizemos? Porque considerávamos que o que havia sido empreendido contra nós era ilegal e que não havia nenhum direito para que fôssemos suprimidos.

A lei fundamental da Igreja é a salvação das almas

Desde esse momento, atuamos segundo as leis fundamentais da Igreja para salvar as almas, salvar o sacerdócio, continuar a Igreja. De fato, são essas coisas que estão em jogo. Opomo-nos a certas leis particulares da Igreja para salvaguardar as leis fundamentais. Usando contra nós as leis particulares, são destruídas as leis fundamentais; o que significa ir contra o bem das almas, contra os fins da Igreja.

O novo Código de Direito Canônico contém artigos que são contrários aos fins da Igreja. Por exemplo, quando permite dar a comunhão a um protestante, não podemos dizer que não vá contra os fins da Igreja. Quando afirma que existem dois poderes supremos na Igreja, não podemos dizer que não vá contra os fins da Igreja. A própria definição da Igreja como “povo de Deus”, no qual estão fundamentalmente todos os ministérios, não faz mais nenhuma distinção entre o clero e os leigos, vai contra o dogma. Tudo isso é contrário aos fins da Igreja. São destruídos os princípios fundamentais do Direito e querem obrigar-nos a submeter-nos a isso.

Para salvar as leis fundamentais da Igreja, estamos obrigados a ir contra as leis particulares. Em tudo isso, quem está equivocado e quem tem a razão? É evidente que têm a razão os que salvam os fins da Igreja. As leis particulares foram feitas em função das leis fundamentais, isto é, para a salvação das almas, para a glória de Deus, para a continuação da Igreja. O que é bastante evidente.

Contudo, em todo momento voltam a recordar: Dom Lefebvre está suspenso, seus sacerdotes estão suspensos, eles não têm nenhum direito para seguir exercendo seu ministério. Recordam leis particulares. Mas poderiam recordar também que eles estão a ponto de destruir a Igreja; não as leis particulares, mas as leis fundamentais, por exemplo, por meio desse novo Direito Canônico totalmente inspirado pelo mau espírito modernista que se manifestou no Concílio e no pós-Concílio.

É claro que desejaríamos que tudo estivesse normal e que nós não estivéssemos nesta situação aparentemente ilegal. Mas não se pode fazer a menor repreensão contra nós como se houvéssemos querido mudar algo na Igreja. Temos que reflexionar e compreender este espírito: somos da Igreja e continuamos a Igreja. E por que a continuamos? Porque procuramos alcançar os fins da Igreja. Ainda que possam acusar-nos de faltar contra certas leis práticas, ninguém pode dizer que a Fraternidade não obra segundo os fins da Igreja. Ninguém pode afirma-lo!

Pois bem, inclusive nas leis particulares, a Igreja teve a sabedoria de deixar sempre uma porta aberta para a salvação das almas. Por isso previu casos extraordinários, o que, por exemplo, ocorre com a jurisdição para as confissões. Na prática, por intermédio do Direito Canônico, aquele que procura um sacerdote para receber o sacramento da Penitência é quem lhe dá a jurisdição. Ainda que essa pessoa se dirigisse a um sacerdote excomungado para pedir-lhe que a ouvisse em confissão, esse sacerdote receberia a jurisdição. (2)

Algo similar ocorre para o matrimônio: o Direito Canônico previu uma exceção para aqueles que não conseguem encontrar um sacerdote que os case segundo o espírito da Igreja, como se casaram seus pais. O que é algo elementar, ou seja, que os jovens desejem casar-se segundo o rito com que se casaram seus pais e não em um rito que, além de ser frequentemente ridículo, é também às vezes odioso e cujo ambiente está longe de ser piedoso ou favorável a um ato tão importante e sagrado como é o sacramento do matrimônio. Se os noivos não encontram um sacerdote em um lapso de um mês, podem casar-se por si mesmos. De fato, eles são os que se dão mutuamente o sacramento, já que são os ministros, e, neste caso, ficam eximidos da forma canônica (2). Podem casar-se diante de duas testemunhas e se há um sacerdote próximo, deve estar presente. O sacerdote não terá delegação, mas estará presente nesse matrimônio, como exige o Direito Canônico, e dará a bênção nupcial.

Também para a confirmação existe uma exceção. O sacerdote tem direito a dar a confirmação em certos casos. Também está no Direito Canônico. O sacerdote deve dar este sacramento a quem se encontre em perigo de morte, caso ainda não o tenha recebido.

Um sacerdote pode dar a confirmação em outros casos excepcionais. Nas missões, esta possibilidade se estende aos matrimônios. Os sacerdotes tinham direito de dar a confirmação antes do matrimônio, se os contraentes ainda não a houvessem recebido.

Sobre esse assunto, nunca disse que todas as confirmações atuais fossem inválidas, mas são questionáveis no que se refere à fórmula utilizada e ao óleo empregado. É algo importante. Recebi muitos testemunhos de pessoas que, formalmente, me repetiram a fórmula utilizada pelo bispo… fórmulas inválidas. “Recebe o Espírito Santo”, só isso. “Envio-te em missão”. Talvez não seja frequente, mas ocorre às vezes e invalida o sacramento. Em todo caso, há muitos bispos que consideram a confirmação como um sacramento inútil, que o Espírito Santo já foi comunicado no batismo, que é uma cerimônia suplementar para recordar o que foi feito no batismo. Isso é o que dizia explicitamente o antigo arcebispo de Chambéry em sua revista diocesana: “A confirmação não dá o Espírito Santo, já que Ele já foi recebido no batismo”. Mostrei esta revista ao Cardeal Ratzinger e lhe disse: “O senhor me repreende por fazer confirmações, mas veja o que pensam os bispos sobre a confirmação”. Esse arcebispo, atualmente aposentado, tinha na época 72 ou 73 anos, logo, havia sido formado à moda antiga. Havia conhecido o sacramento da confirmação segundo o ensinamento de outro tempo. Sem dúvida, a fé do bispo não interfere na confirmação administrada, mas este sacramento pode ser tratado assim? Esse é o raciocínio dos protestantes e, por isso mesmo, podemos perguntar-nos se a intenção desses bispos é a de fazer o que faz a Igreja. Se quisermos sobreviver e que Deus continue abençoando a Fraternidade, temos de permanecer fiéis a essas leis fundamentais da Igreja.

Sem a Missa tudo desmorona

Se nossos sacerdotes abandonassem a verdadeira liturgia, o verdadeiro Santo Sacrifício da Missa, os verdadeiros sacramentos, já não valeria a pena seguir adiante. Seria um suicídio!

Quando Roma nos diz: “Pois bem, vocês poderiam adotar a nova liturgia e seguir com seus seminários, não será isso que os fará desaparecer”, eu respondo: “Sim, isso faria desaparecer nossos seminaristas. Jamais poderão aceitar a nova liturgia; isso seria introduzir o veneno do espírito conciliar na comunidade. Se os demais não resistiram, é por haverem adotado esta nova liturgia, todas estas reformas, todo este novo espírito. Se aceitarmos as mesmas coisas, chegaremos aos mesmos resultados”.

Por isso temos de manter a todo custo nossa linha tradicional, apesar da aparência de desobediência e das perseguições por parte daqueles que usam sua autoridade de maneira injusta e frequentemente ilegal.

Cada vez mais nos vemos obrigados pelas circunstâncias, que se agravam sem cessar. Se o estado das coisas parecesse estar sendo revertido, se fossem percebidos novos sinais tangíveis de uma volta à Tradição, tudo seria diferente. Mas, infelizmente, tudo vai de mal a pior. Os novos bispos que substituem os antigos receberam menos formação teológica e estão imbuídos desse espírito do Concílio, espírito protestante e modernista, e a situação se torna cada vez mais grave. Diante dessa degradação contínua, acaso não estamos obrigados a tomar medidas extraordinárias? Todos estes acontecimentos justificam nossa atitude. Contudo, os sacerdotes progressistas nos repreendem sempre que têm uma ocasião: “Vocês não têm jurisdição, não têm direito de ouvir confissões”. E consideram tudo o que fazemos como inválido e será muito se também não considerarem inválida nossa missa. Esse é o espírito que reina entre os progressistas encarniçados, que se opõe a nós e nos insultam. Não temos que hesitar em replicar que temos que usar bem as leis da Igreja, isto é, aquilo que a Igreja permite nas circunstâncias extraordinárias e de extrema gravidade.

Deus sabe que estamos nesse caso!

Os erros fundamentais

Dolorosamente afetado pela perspectiva da reunião dos representantes de todas as religiões, a convite do Papa, em Assis, no dia 27 de outubro, eu havia enviado uma carta a vários cardeais, para pedir-lhes que suplicassem ao Soberano Pontífice que renunciasse a essa verdadeira impostura.

Ninguém poderá dizer que não fizemos tudo o que era possível para que eles estivessem conscientes da gravidade da situação em que nos encontramos.

Em um sermão que dei na Suíça, lembrei os pontos principais nos quais a fé está em perigo e é contradita pelo papa, pelos cardeais e pelos bispos de maneira geral.

Há três erros fundamentais, de origem maçônico, que os modernistas que ocupam a Igreja professam publicamente:
 

  • A substituição dos Mandamentos pelos Direitos do Homem, que se tornaram hoje o leitmotiv para recordar a moral, substituindo na prática o Decálogo. E o artigo principal dos Direitos do Homem é a liberdade religiosa, que foi desejada particularmente pelos maçons. Antes a religião católica era a religião, as demais eram falsas religiões. Os maçons não queriam mais essa exclusividade que devia ser suprimida. Então foi decretada a liberdade religiosa.
     
  • falso ecumenismo que estabelece na prática a igualdade das religiões. É o que o Papa manifesta de maneira concreta em toda ocasião, até ao ponto de dizer que era um dos principais objetivos de seu pontificado. Dessa maneira, ele age contra o primeiro artigo do Credo e contra o primeiro Mandamento da Lei de Deus. É algo de uma gravidade excepcional.
     
  • Por último, o terceiro ato, que já se tornou algo comum, é a negação do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo por meio da laicização dos Estados. O papa quis e conseguiu na prática laicizar as sociedades e, em consequência, suprimir o reinado de Nosso Senhor sobre as Nações.

Se reunimos estas três mudanças fundamentais e que na realidade não formam mais que uma só, temos a negação da unicidade da religião de Nosso Senhor Jesus Cristo e, portanto, de seu reinado. E para quê? A favor de quem? Provavelmente de um sentimento religioso universal, de uma espécie de sincretismo cujo objetivo é reunir todas as religiões.

A situação é gravíssima, porque parece que Roma, o papa e os cardeais são os que estão realizando o ideal maçônico. Os maçons sempre o desejaram e estão conseguindo, não por si mesmos, mas por meio dos próprios homens da Igreja.

Basta ler os artigos escritos por alguns deles ou por seus simpatizantes para ver com que satisfação eles acolhem toda essa transformação da Igreja, essa mudança radical que a Igreja realizou desde o Concílio e que, para eles, era antes dificilmente concebível.

A verdade evolucionaria com o tempo!

Não é somente o papa que está em questão. O Cardeal Ratzinger, que é considerado pela imprensa como mais ou menos tradicional, é de fato um modernista. Para convencer-se disso e para conhecer seu pensamento, basta ler seu livro “Os princípios da teologia católica”, no qual diz sentir certa estima pela teoria de Hegel, ao escrever:
 

A partir dele, ser e tempo se compenetram cada vez mais no pensamento filosófico. O próprio ser responde à noção de tempo… A verdade se faz em função do tempo; o verdadeiro já não existe pura e simplesmente, mas somente por um tempo, dado que pertence à evolução da verdade, que só é tal na medida em que evolui".

O que querem que façamos? Como é possível discutir com quem raciocina deste modo?

Por isso, não devemos surpreender-nos com sua reação quando eu lhe disse: “Eminência, há ao menos uma contradição entre a liberdade religiosa e o que diz o Syllabus”. Ele respondeu: “Mas, Monsenhor, já não estamos na época do Syllabus!”. É impossível discutir.

O próprio Cardeal Ratzinger em seu livro sobre o texto conciliar referente à Igreja no mundo (Gaudium et spes) que se intitula: “A Igreja e o mundo em relação à questão da recepção do Concílio Vaticano II”. Depois de desenvolver seus argumentos ao longo de várias páginas, ele esclarece:
 

Buscando um diagnóstico global do texto, seria possível dizer que é (em relação aos textos sobre a liberdade religiosa e as religiões no mundo) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de anti-Syllabus (Dignitatis humanae)".

Assim, ele reconhece que os textos sobre a Igreja no mundo, sobre a liberdade religiosa e sobre os não-cristãos (Nostra Aetate), constituem uma espécie de “anti-Syllabus”. É o que eu lhe havia dito, mas agora, sem parecer incomodar-se, ele mesmo o declara explicitamente.

E o Cardeal prossegue:
 

Harnack, como já se sabe, interpretou o Syllabus como um desafio a seu século. Em todo caso, é verdade que traçou uma linha de separação ante as forças determinantes do século XIX”.

Quais foram as “forças determinantes do século XIX”? A revolução francesa, é claro, com toda a sua empresa de destruição. O próprio cardeal as define como sendo “as concepções científicas e políticas do liberalismo”. E segue dizendo:
 

Na controvérsia modernista, esta dupla fronteira foi reforçada e fortificada uma vez mais. Desde então, sem dúvidas, muitas coisas haviam mudado. A nova política eclesiástica de Pio XI havia instaurado certa abertura a respeito da concepção liberal do Estado. A exegese e a história da Igreja, em um combate silencioso e perseverante, haviam adotado cada vez mais os postulados da ciência liberal e, por outra parte, o liberalismo necessitou aceitar, no transcurso das grandes mudanças políticas do século XX, correções notáveis.

Por isso, primeiramente na Europa central, havia sido em grande parte corrigida via facti a fidelidade unilateral, condicionada pela situação, às posturas adotadas pela Igreja por iniciativas de Pio IX e de Pio X contra o novo período da história aberto pela revolução francesa, mas ainda faltava uma nova determinação fundamental das relações com o mundo tal como se apresentava desde 1789".

Esta será a determinação fundamental do Concílio.

 

Na realidade, prossegue o Cardeal, nos países de maioria católica, ainda reinava amplamente a ótica anterior à revolução: hoje quase ninguém questiona que os concordatos espanhol e italiano tentavam conservar demasiadas coisas pertencentes a uma concepção do mundo que desde muito tempo não correspondia às situações reais. Do mesmo modo, quase ninguém contata que a essa fidelidade a uma concepção antiga das relações entre a Igreja e o Estado correspondiam anacronismos semelhantes no campo da educação e da atitude que devia ser adotada com respeito ao método histórico-científico moderno".

Assim fica evidenciado o verdadeiro espírito do Cardeal Ratzinger, que acrescenta:
 

Somente uma busca minuciosa dos diversos modos como as diferentes partes da Igreja souberam acolher o mundo moderno poderia desemaranhar a complicada rede de causas que contribuíram a dar forma à constituição pastoral e, somente dessa maneira, poderia ser esclarecido o drama da história de sua influência.

Contentemo-nos aqui com constatar que o texto exerce o papel de um anti-Syllabus, na medida em que representa uma tentativa de reconciliação oficial da Igreja com o mundo tal como se apresenta desde 1789".

Tudo isso está perfeitamente claro e corresponde com o que nós nunca deixamos de afirmar. E por isso nos negamos, não queremos ser os herdeiros de 1789!
 

Por um lado, somente esta visão dá luzes sobre o complexo de gueto do qual falamos no princípio [a Igreja, um gueto!] e, por outro lado, somente essa visão permite compreender o sentido desse estranho cara a cara da Igreja com o mundo: por “mundo” entende-se, no fundo, o espírito dos tempos modernos, frente ao qual a consciência de grupo na Igreja se sentia como um ser a parte, que, depois de uma guerra tão repentinamente fria como quente, buscava o diálogo e a cooperação".

Estamos obrigados a constatar que o cardeal perdeu totalmente de vista a ideia do Apocalipse da luta entre a verdade e o erro, entre o bem e o mal. De agora em diante, busca-se o diálogo entre a verdade e o erro. Não é possível compreender a estranheza deste cara a cara da Igreja com o mundo.

Mais adiante, o cardeal define assim seu pensamento:
 

A Igreja e o mundo são como o corpo e a alma. (...) Para entende-lo bem, é necessário acrescentar que o clima de todo o processo estava marcado de maneira decisiva por Gaudium et spes. O sentimento de que já não devia haver realmente um muro entre a Igreja e o mundo, e de que todo “dualismo” - corpo e alma, Igreja e mundo, graça e natureza e, em definitiva, Deus e mundo - era prejudicial. Esse sentimento se tornou cada vez mais uma força destruidora para o conjunto".

Lembremos que o Cardeal Ratzinger está à cabeça da Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício. Com essa expressão de pensamento, o que a Igreja pode esperar daquele que está encarregado da defesa da fé?

Enquanto ao Papa, vemos que tem o mesmo espírito. Sem dúvidas é um polonês, mas o fundamento das ideias é o mesmo. Eles estão animados pelos mesmos princípios, pela mesma formação. Por essa razão, não sentem vergonha nem horror ao fazer o que fazem, enquanto nós nos sentimos realmente espantados. A religião, como no liberalismo, é no modernismo um sentimento interior.

Por isso, desde o dia em que, contra todo direito, fomos condenados por Dom Mamie, apoiado por Roma, não fizemos nenhum caso e aparentemente incorremos em desobediência. Mas nosso dever era desobedecer, porque queriam obrigar-nos a colocar-nos no espírito de 1789, no espírito do liberalismo, no espírito do anti-Syllabus. Negamo-nos naquele momento e seguimos negando-nos. Esses são os homens, como o Cardeal Villot, imbuídos de liberalismo, que nos condenaram e é essa a Roma liberal que nos condenou. Mas agindo desse modo condenaram a Tradição e a Verdade.

Rechaçamos essa condenação, porque a considerávamos inválida e inspirada pelo espírito modernista. O que fazíamos e seguimos fazendo não é outra coisa que colaborar a que se mantenha a Tradição. Assim, parecemos estar em uma situação de desobediência legal, mas seguimos ordenando sacerdotes e dando sacerdotes aos fiéis para a salvação de suas almas. Estes sacerdotes exercem seu ministério sempre sob uma aparência de desobediência à letra da lei. E seguiremos agindo assim enquanto Deus assim o disponha.

Não somos nós os que criamos essa situação na Igreja que se agrava cada vez mais em condições espantosas. Ninguém poderia haver imaginado há dez anos, antes da chegada do papa João Paulo II, que um Sumo Pontífice faria um dia uma cerimônia como a de Assis. Ninguém jamais teria essa ideia. Ninguém pensaria que um Papa visitaria uma sinagoga e que faria um discurso tão abominável. Ninguém teria sequer imaginado. E também jamais seria possível pensar que um Papa faria o que ele fez na Índia. Tudo isso pareceria inconcebível.

Queremos continuar a Igreja

Nós, que estamos enxertados na Igreja, que recebemos as aprovações oficiais da Igreja, queremos continuar a Igreja, continuar o sacerdócio, salvar as almas.

Mas que seja bem compreendido: não digo que a Fraternidade seja a Igreja, mas que somos da Igreja, como foram os Sulpicianos, os Lazaristas, as Missões estrangeiras e tantas outras congregações. Fomos reconhecidos como tais e assim seguiremos sendo. Não queremos mudar.

Há somente uma Igreja, na qual somos um ramo fecundo, cheio de seiva, aprovado pela Igreja, exatamente do mesmo modo como o foram em outro tempo as demais congregações, que hoje, infelizmente, estão em sua maioria em vias de desaparecer.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a nosso parecer, foi suscitada providencialmente por Deus para ser um farol, uma luz no mundo inteiro, a fim de salvar o verdadeiro sacerdócio, o verdadeiro Sacrifício da Missa, a doutrina e a Tradição da Igreja e levar a salvação às almas.

Vivemos em um tempo realmente excepcional e que cremos ser apocalíptico. Por isso temos de rezar a Deus, rezar a São Pio X, nosso padroeiro, para receber as graças que nos fortaleçam.

Deus quase me forçou a fundar a Fraternidade, a realizar esta obra, que em seu desenvolvimento parece haver recebido sua bênção. Negá-lo seria negar a evidência. Todo o mundo pode comprová-lo.

Muitos de nossos sacerdotes já têm mais de oito ou dez anos de sacerdócio e o número de católicos que gravita em torno deles e que se comprazem por isso é considerável. Quantas vezes recebo cartas e felicitações quando passo pelos priorados!: “Ah, Dom Lefebvre! Seus sacerdotes! Graças a Deus que temos seus sacerdotes! Quanto bem nos fazem! Ajudam a nós e a nossas famílias a seguir sendo católicos. Quão agradecidos estamos!”.

Como não constatar a ação da Providência quando vemos todas estas vocações vindas de todas as partes, apesar de todos os ataques e intentos subversivos com o fim de destruir-nos! Não há dúvida que o diabo faz tudo o que está ao seu alcance para dividir-nos, para desagregar-nos. E, infelizmente, conseguiu em certa medida: são muitos os que nos deixaram.

Ao total, ordenei trezentos e seis sacerdotes nos últimos quinze anos, cinquenta e seis deles para as comunidades e mosteiros amigos. Naturalmente não houve muitas ordenações nos primeiros anos. As primeiras ordenações importantes começaram em 1975. Para onze anos, é uma cifra bastante considerável e isso apesar de todas as oposições e perseguições contra nossos seminaristas, apesar do desalento que é provocado neles, aos quais algumas pessoas conseguiram apartar de sua vocação.

Permaneçamos unidos, sejamos valentes e firmes, sigamos adiante. Deus certamente nos abençoará. Não devemos temer, mas permanecer decididos a defender e a transmitir nossa fé.

Luis Veuillot dizia: “Duas potências vivem e estão em luta no mundo: a Revelação e a Revolução”. Nós escolhemos guardar a Revelação, enquanto a nova Igreja conciliar escolheu a Revolução. A razão dos nossos vinte anos de combate está nessa escolha.

Imploremos à Santíssima Virgem, nossa rainha a quem está consagrada a Fraternidade, que nos ajude.

Dom Marcel Lefebvre
Extraído de Fideliter, n°55, edição de janeiro-fevereiro de 1987